Carne e Osso: O Passo a Passo Para Criar Personagens Que Ficam na Cabeça do Público Brasileiro
Tem uma diferença enorme entre um personagem que o público acompanha e um personagem que o público ama. O primeiro você assiste. O segundo você carrega com você depois que a tela apaga. Aqui no JuninhoScripts, a gente sempre bate nessa tecla: roteiro bom começa com gente de verdade dentro da história. E quando falamos de audiovisual brasileiro, esse "de verdade" tem um peso extra.
Vamos conversar sobre o que transforma um protagonista numa figura inesquecível — especialmente para quem cresceu ouvindo funk no baile, comendo pão de queijo no café e vendo o noticiário com uma mistura de raiva e esperança.
O Arquétipo Não É um Atalho, É uma Fundação
Muita gente confunde arquétipo com clichê. O arquétipo é a estrutura, o clichê é quando você não faz nada além dela. O herói relutante, o trickster, o mentor decadente — essas figuras existem em toda cultura humana porque tocam em algo profundo. Mas no Brasil, esses arquétipos ganham roupagem própria.
Pense no personagem do malandro carioca — não o vilão, não o herói clássico, mas aquele cara que sobrevive no jogo sem perder a alma. Ou na mulher nordestina resiliente, que não é só forte porque sofreu, mas porque tem uma visão de mundo que os outros não têm. Quando você parte de um arquétipo universal e veste ele com especificidade cultural brasileira, você cria algo que ressoa em dois níveis ao mesmo tempo: o humano e o local.
A série Cidade Invisível faz isso com inteligência. Os personagens bebem da mitologia do folclore nacional — não como fantasia decorativa, mas como parte da identidade de quem eles são. Isso cria camadas.
Contradição é Vida
Nenhum ser humano é coerente o tempo todo. A gente ama quem nos machuca, defende valores que às vezes a gente mesmo quebra, ri de nervoso quando deveria chorar. Protagonistas planos — aqueles que têm um objetivo e vão direto nele sem tropeçar em si mesmos — são chatos porque não se parecem com ninguém que a gente conhece.
O que torna Brás Cubas, de Machado de Assis, tão moderno até hoje? A contradição. Ele é covarde e lúcido ao mesmo tempo. Egoísta e encantador. Essa tensão interna é o que mantém o leitor — e o espectador — grudado.
Ao construir seu protagonista, pergunte: o que ele quer e o que ele precisa são a mesma coisa? Quase nunca deveriam ser. O personagem que quer ficar rico, mas precisa aprender a confiar nas pessoas — esse gap entre desejo e necessidade é onde a história mora.
Especificidade Brasileira: Além do Estereótipo
Aqui mora um dos maiores perigos para o roteirista nacional: confundir representação com caricatura. Colocar um personagem da periferia que só existe para sofrer. A mulher negra que é forte mas nunca tem história própria. O nordestino engraçado que serve de alívio cômico.
Esses padrões existem porque foram repetidos por décadas. Mas o público brasileiro — especialmente o mais jovem — já percebe esse vício e rejeita. Filmes como Bacurau e Aquarius mostram outro caminho: personagens com regionalidade, classe social e raça definidas, mas que existem como sujeitos completos, com desejos, falhas e agência narrativa.
A dica prática aqui é simples: antes de escrever, pergunte se o seu personagem teria uma história fora das cenas em que ele aparece. Se a resposta for não, você tem um tipo, não uma pessoa.
A Psicologia Por Trás da Identificação
Por que o público ama certos personagens mesmo quando eles fazem coisas horríveis? Porque identificação não é aprovação — é reconhecimento. Quando vemos alguém na tela que sente o mesmo medo que a gente, que mente do mesmo jeito que a gente mente, que ama de um jeito que a gente entende, algo se acende.
Essa é a lógica que sustenta personagens como Carminha, de Avenida Brasil. Ela é a vilã, todo mundo sabe. Mas a audiência brasileira ficou grudada nela por meses porque Glória Perez construiu (e Adriana Esteves executou) uma mulher com história, com lógica interna, com dor real por trás da crueldade. Você não precisava torcer por ela. Mas você precisava entendê-la.
Exercício Prático: O Dossiê do Personagem
Antes de escrever a primeira cena com seu protagonista, monte um dossiê. Não precisa ser longo — precisa ser honesto:
- O que ele mais teme que ninguém descubra sobre ele?
- Qual foi o momento que o formou — e ele ainda não superou?
- Como ele age quando ninguém está olhando?
- O que ele acha que é, versus o que ele realmente é?
Essas quatro perguntas sozinhas já vão revelar um personagem com mais profundidade do que páginas de descrição física e backstory detalhado.
Universalidade com Sotaque
No fim das contas, a grande sacada é essa: o personagem precisa ser humano o suficiente para qualquer pessoa se reconhecer, mas brasileiro o suficiente para quem é daqui sentir que aquela história foi feita pra ele.
Não é fórmula. É escuta. É observar as pessoas ao redor, entender como o Brasil pensa, como ele ri, como ele chora — e colocar tudo isso dentro de alguém que, na tela, parece respirar de verdade.
Isso é o que separa o personagem que o público esquece na saída do cinema do que fica morando na cabeça por anos.