Quando o Personagem LGBTQ+ Deixa de Ser Símbolo e Passa a Ser Gente: Um Guia Para Roteiristas Brasileiros
A Diferença Entre Incluir e Representar
Tem um momento específico que muita gente que escreve roteiro já viveu: você está desenvolvendo seus personagens, percebe que a história está muito homogênea, e então decide adicionar um personagem gay, lésbica ou trans. Missão cumprida, certo?
Errado. Ou pelo menos: incompleto.
Incluir um personagem LGBTQ+ é uma decisão. Representar de verdade é um processo. E a distância entre os dois é onde a maioria dos roteiros brasileiros ainda tropeça.
Não estamos falando aqui de má intenção. Estamos falando de uma falta de ferramentas, de referências e de perguntas certas. E é exatamente isso que queremos resolver neste artigo.
O Que É Tokenização e Por Que Ela Aparece Tanto
Tokenização, no contexto de roteiro, é quando um personagem existe primariamente para representar um grupo — não para ser uma pessoa. O personagem gay que só aparece para dar conselhos de amor ao protagonista heterossexual. A personagem lésbica cuja sexualidade é revelada num momento dramático e depois nunca mais mencionada. O personagem trans que existe como metáfora de transformação para outra pessoa.
Esses padrões aparecem tanto por uma razão simples: quando o roteirista não tem familiaridade real com a experiência LGBTQ+, ele recorre a funções narrativas. O personagem vira uma ferramenta a serviço de outra história, não o protagonista da sua própria.
E o público percebe. Especialmente o público LGBTQ+ brasileiro, que já viu esse padrão tantas vezes que desenvolveu um radar muito apurado para ele.
Perguntas Que Todo Roteirista Deveria Fazer
Antes de escrever a primeira cena com um personagem LGBTQ+, vale se fazer algumas perguntas honestas:
Essa pessoa existiria na história se a sexualidade ou identidade de gênero dela fosse diferente? Se a resposta for não, você tem um token, não um personagem.
O que esse personagem quer, além de ser aceito? Personagens LGBTQ+ têm desejos, ambições, medos e contradições que não têm nada a ver com sua identidade. Quando o único conflito do personagem gira em torno de ser quem é, a narrativa se torna unidimensional.
A história termina em tragédia por causa da identidade do personagem? Existe um clichê chamado "Bury Your Gays" — a tendência histórica do audiovisual de matar ou punir personagens LGBTQ+ como resolução dramática. No Brasil, esse padrão aparece com frequência nas novelas e em alguns filmes. Vale questionar se a tragédia é necessária ou apenas conveniente.
Quem está na sala quando esse roteiro é escrito? Não é obrigatório ser LGBTQ+ para escrever personagens LGBTQ+. Mas é essencial ter vozes desse universo no processo — como consultor, como leitor de confiança, como colaborador.
Casos Brasileiros Que Acertaram
O audiovisual brasileiro tem exemplos concretos onde essa representação funcionou de verdade — e vale estudá-los.
"Malhação: Viva a Diferença" foi um marco. A relação entre Lica e Samantha foi construída com a mesma complexidade emocional de qualquer outro romance da série. As personagens tinham vida fora da relação, tinham conflitos próprios, e a sexualidade delas não era o único traço que as definia. O resultado foi uma das histórias mais comentadas da história recente da teledramaturgia brasileira.
"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" de Daniel Ribeiro é um exemplo no cinema. O protagonista é cego e gay — mas nenhuma dessas características existe para servir de metáfora. Elas simplesmente fazem parte de quem ele é, e a história se desdobra a partir daí com naturalidade e emoção genuína.
"Bixa Travesty", documentário de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, mostra como dar câmera e voz diretamente para quem está sendo representado pode resultar em algo que nenhum roteirista externo conseguiria construir sozinho.
O que esses projetos têm em comum? Em todos eles, o personagem LGBTQ+ é o centro, não o ornamento.
Ferramentas Práticas de Escrita Inclusiva
Algumas abordagens concretas que podem ajudar no processo:
Escreva a biografia completa antes de escrever a cena. Quem é essa pessoa antes de aparecer na tela? Qual é a relação dela com a família? Com o trabalho? Com os próprios sonhos? Quanto mais concreta for a vida fora da câmera, mais real o personagem vai parecer dentro dela.
Evite o coming out como único arco. A revelação da identidade pode fazer parte da história — mas não precisa ser a história inteira. Personagens LGBTQ+ também têm aventuras, mistérios para resolver, amizades complicadas, objetivos profissionais. Deixe-os existir além desse momento.
Pesquise a linguagem e o contexto cultural. A experiência de ser gay em São Paulo é diferente de ser gay em Fortaleza, que é diferente de ser trans numa cidade pequena do interior. O Brasil é um país enorme e diverso, e essas diferenças importam para a autenticidade da narrativa.
Leia o roteiro com alguém que vive essa experiência. Não para aprovação ou veto, mas para identificar pontos cegos. Muitas vezes, o que parece natural para quem escreve soa falso para quem vive.
Questione os finais. Se o seu personagem LGBTQ+ termina a história sozinho, punido ou morto — pergunte se essa foi a escolha mais honesta ou a mais preguiçosa.
O Mercado Também Está Pedindo Isso
Além da dimensão ética, existe uma dimensão prática que vale mencionar: as plataformas globais estão ativamente buscando histórias com representação LGBTQ+ autêntica no Brasil.
O país tem a maior população LGBT+ da América Latina. Tem uma tradição cultural vibrante nessa comunidade — do cinema queer dos anos 80 à cena drag contemporânea. Tem histórias que precisam ser contadas e um público enorme que quer se ver na tela de forma digna e complexa.
Roteiristas que desenvolvem essa sensibilidade têm uma vantagem real no mercado atual. Não porque é tendência — mas porque é necessidade narrativa.
Escrever é um Ato de Responsabilidade
No fim, a questão não é política. É narrativa.
Personagens rasos são um problema de escrita, independentemente de quem eles representam. E personagens LGBTQ+ rasos têm um custo adicional: eles reforçam apagamentos e estereótipos que afetam pessoas reais.
A boa notícia é que a solução é a mesma de sempre: pesquisa, empatia, escuta e o compromisso de criar personagens que sejam gente de verdade — com contradições, desejos, erros e momentos de graça.
Quando você consegue isso, não está apenas sendo inclusivo. Está sendo um roteirista melhor.